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  • Laura Amaral

Análise | Boca a Boca - 1ª Temporada

Atualizado: 26 de out. de 2020

Voltamos como prometido para falar sobre essa nova série brasileira da Netflix!

Relembrando da nossa postagem sobre o trailer, “Boca a boca” é uma série de 6 episódios que variam entre 30 a 50 minutos de duração, com a direção assinada por Juliana Rojas (A boas maneiras - 2017) em conjunto ao criador da obra Esmir Filho (Alguma coisa assim - 2017).


Com um elenco muito bacana e coerente na sua escalação, encontramos no núcleo dos “pais” personalidades como: Denise Fraga (Retrato Falado), Bianca Byington (A padroeira), Tomás Aquino (Bacurau), Bruno Garcia (Auto da Compadecida) e Grace Passô (Vaga Carne). Quanto ao núcleo adolescente: Michel Joelsas (O ano que meus pais saíram de férias), Caio Horowicz (Hebe – A estrela do Brasil), Luana Nastas (Vazante) e a estreante Iza Moreira.

Do que se trata?

Em uma pequena cidade do interior chamada Progresso (nada sutil, né?), alguns alunos da escola local começam a apresentar sinais de uma doença desconhecida após voltarem de uma festa psicodélica em uma comunidade alternativa nas proximidades (a “Seita”), regada por muita pegação e “drogas”.

Apenas sabendo que é uma contaminação feita através do beijo, essa doença que se inicia com uma estranha mancha escura nos lábios começa a afetar de forma sistêmica o organismo dos alunos, um de cada vez até o ponto de total catatonia. Enquanto isso vamos acompanhando nossos protagonistas Chico (Michel Joelsas), um estudante “desviado” recém chegado da cidade grande para morar com o pai; Alex (Caio Horowicz), filho do grande criador de gado da cidade; e Fran (Iza Moreira) filha de uma funcionária da fazendo adoecida devido a exploração de trabalho e em vulnerabilidade social. Juntos, eles tentam descobrir quem está no mapa “do beijo” e então os possíveis contaminados e como evitar o pior.


Ao mesmo tempo que deixam os habitantes da cidade aflitos, também nos apresenta diversas maneiras das quais uma população consegue negar uma realidade e se manter alienada.

Um olhar simbólico!

Boca a Boca é uma série que, apesar de nos envolver com uma história bem amarrada e muito envolvente em seu desenvolvimento, também chama muito a atenção no sentido metafórico por trás de tudo. Basicamente, nos pegamos assistindo a uma criativa, porém desconfortante, história que critica a relação entre pais com seus filhos na juventude.


Nós somos apresentados a essa cidade interiorana e pecuária, com suas típicas construções coloniais, ruas de paralelepípedo e igrejas no alto do morro. No decorrer da história, vemos que essa escolha não foi em vão e vamos conhecendo habitantes (principalmente no núcleo dos pais dos alunos) com comportamentos e visão de mundo tão antiquados e inabaladas quanto a estrutura física da cidade.

No entanto, A trama nos mostra uma falha dialética entre a realidade da vida adolescente em oposição a de seus pais dentro dessa compreensão esperada de uma cidadezinha tradicional. Quando se trata do ponto de vista do núcleo adolescente, mesmo que em seus uniformes engomadinhos, encontramos uma galera extremamente contemporânea e conectada (seja isso positivo ou não) em seus celulares, mídias sociais e influências digitais.

Através de pinceladas na realidade de algumas famílias da cidade, vamos vendo adolescentes desconectados de seus pais, sejam através de valores, segredos, proteção ou mesmo fisicamente. No entanto, o percurso nos direciona a polarizar os adolescentes para o lado da vivacidade e os pais em uma estagnação quase que paralisante.

Enquanto os adolescentes ou estão desesperados atrás de entender o que está acontecendo ou se divertindo de forma inconsequente com a situação, os adultos ficam alí ignorando (ou evitando olhar) a grandiosidade da situação, indo na igreja, fazendo sua academia, trancando os doentes em uma sala hospitalar de isolamento. Estão no hospital, ué... Teoricamente estão sendo cuidados, não?

Existe, então, uma grande crítica as diversas formas de alienação. Seja por adolescentes defendidos pelas telas de seus smartphones lidando com tudo de uma forma sensacionalista para ganhar mais likes em suas redes ou em pais tão preocupados com valores sociais, suas imagens parental ou manutenção do status quo sociopolítico que não olham de fato para o que seus filhos estão fazendo.

Também ficamos sabendo sobre a tal da “Seita”, uma comunidade alternativa próxima a cidade da qual é pouco falada porém temida e, por isso, intencionalmente ignorada pelos adultos. “Ninguém daqui vai pra lá, e ninguém de lá vem para cá”, disse a diretora da escola Guiomar (Denise Fraga). Pois é, minha filha, você realmente não vê nada acontecendo né? Enquanto esses a temem e fingem que ela está lá quietinha lá no seu canto vivendo suas "atrocidades", os jovens são frequentadores assíduos de suas festas e possíveis outras vivências opostas à uma cultura opressora e antiquada.

Falando em cultura opressora, em conjunto com a temática principal da obra também são fortemente abordadas questões de extrema importância, como orientação sexual e suas repercussões (desde a negação da própria orientação até casos indiretos ou mesmo viscerais de homofobia), mulheres negras em vulnerabilidade social e a venenosa indústria agropecuária. Esse último porém, apesar de válido, não me convenceu muito na abordagem. Vocês irão entender quando assistirem.

Deliberações (com spoilers)!

Já deixo avisado que a partir daqui teremos spoilers, então te convido a pular para a próxima parte "Onde assistir, próximas temporadas e conclusões finais!", ir lá na plataforma assistir e depois voltar para cá, ok? Se você já assistiu, bora seguir!

Ao longo da história eles nos contam que a doença paralisa os doentes a ponto deles não conseguirem mais pensar, sentir ou se expressar. Com uma impressão visual bastante irreal e impactante, com lábios roxos, veias fluorescentes e olhos todo branco e arregalados, nós entendemos que estamos tratando ali de algo além de uma doença de fato.


Também é dito que antes do primeiro sintoma aparecer, a pessoa contaminada sofre uma alucinação do seu pior medo, e muitos relatam situações semelhantes a perda de seus valores morais ou de liberdade existencial: Uma com a mãe perseguindo e ela tentando fugir sem sair do lugar, outra sendo enterrada viva na cova da irmã falecida, e outro se transformando em gado.

Os adolescentes ali, de alguma forma, expressam suas necessidades afetivas e de individualização, enquanto seus pais fazem uma representação de aprisionamento ou ausência desses carecidos acolhimento e afetividade. A doença nos remete ao que os jovens já vivem: Não pode sentir, não pode falar, não pode ver, apenas ouvir.

De início eu não conseguia entender o porque eles diziam que os amigos estavam em uma prisão se revoltavam tanto com o fato de os doentes estarem fechados em uma sala de isolamento hospitalar, afinal, faz sentido já que eles estão doentes com algo que não sabemos o que é. Foi nessa hora que me acometeu que eles não estavam falando da sala de isolamento, uma vez que ela é apenas uma alegoria. Fecha-se e isola aqueles que se diferenciam do normal. Assim como a seita, tememos e criticamos aquilo que não conhecemos.

Porém, é justamente ali naquele lugar mal visto chamado de “seita” que descobrimos onde está a possível recuperação. Não apenas literal, como de vida. Aquela Manu (Esther Tinman) filha da diretora, a qual essa dizia com orgulho estar em um intercâmbio para o Texas (coincidência ou não, o estado conhecido como o mais retrógrado dos Estados Unidos), na realidade havia fugido dessa viagem e estava desde então refugiada ali na comunidade ao lado.

Através dela, entendemos qual é a verdadeira forma de lidar com a doença, trazendo os jovens de volta a vida, porém nunca inteiramente curados. Uns ficam mais tempo sem sentir os sintomas retornarem, enquanto outros mais comprometidos precisam mais vezes retornar aos braços do acolhimento. Mas aí é que assimilamos com nossa vida real, em que podemos viver de forma saudável mesmo com nossos traumas e introjeções, desde que saibamos onde recorrer quando essa saúde nos faltar.

Os doentes são trazidos de volta a “vida” ao colocados na água, preferencialmente segurados por aqueles que deveriam lhes oferecer maior conforto: Seus pais. Um óleo de despertar dos sentidos é colocado em suas bocas enquanto os pais se reconectam a eles em forma de canções ou lembranças. É nesse momento que a família está além das aquisições materiais... Dalva (Grace Passô), mãe de Fran, é a única mãe que questiona e não se conforma em ver a filha sem avanços no “tratamento” no hospital, e é ela quem dá ouvidos aos amigos da filha quando dizem saber dessa outra forma de salvá-la ali na outra comunidade.

Sem pensar duas vezes, eles a levam junto com Fran e vemos uma linda cena de uma mãe acolhendo e oferecendo nada mais do que amor a filha. Ela leva essa resposta à cidade e com muito questionamento, consegue comover os pais ao tirarem os filhos do hospital e levarem para uma grande piscina em que eles possam fazer esse ritual de reconexão. Dói nossos corações quando vemos Alex quase não conseguir retornar devido sua mãe se desesperar pelo bloqueio que enfrenta ao ter que oferecer afeto ao filho, e é apenas através da mediação da irmã que ele retorna.

Como eles conseguem, então, se manterem saudáveis apesar de nunca curados? Manu fala em um momento que, quando sente que a doença a está fazendo sentir frio, ela busca o calor. Muitas vezes as respostas das nossas angústias são mais instintivas e naturais do que imaginamos, porém percebemos que estamos cada vez mais afastados dessa natureza. Fechamos os olhos para elas, trancamos os doentes sem achar soluções, uma vez que as soluções fogem da zona de conforto que construímos.

Onde assistir, próximas temporadas e conclusões finais!

A série, como falado lá em cima, é uma produção original da Netflix e acabou de sair do forno para nos deliciarmos! Devido a uma claríssima pontinha no ar deixada ali, torcemos para a confirmação da segunda temporada.

Sugiro que a peguem para assistir quando estiverem bastante inspirados e acessíveis à algo que está além da tela, pois se permitirão aprofundar em algo bastante tocante. Não só pela história que já foi mais do que discutida aqui, como também por toda a linda produção, direção, fotografia e atuações.

Infelizmente, como em qualquer produção, existe uma coisinha aqui e ali que poderia ser retirada. Desde uma abordagem meio óbvia que os alunos usam para "esconder" a mancha na boca, até uma certa militância e um pequeno uso desnecessário de CGI que poderia ser (talvez) evitado. Esse último foi inserido tão do nada e de forma tão exagerada (beirando ao tosco) que ao meu ver foi uma tentativa de fazer algo pegar o bonde andando e tentar sentar na janelinha.

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