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  • Giulia K. Rossi

Análise | Monstro – Uma forte mensagem em um enredo fraco

Entre alguns tropeços e outros, nos deparamos com certas produções incríveis na dona Netflix. Mas, no meio desse mar de possibilidades, uma coisa é certa: a patroa dos streamings gosta de apostar na diversidade e trazer ao seu público vários conteúdos relevantes para o mundo atual. E seja bom, ruim ou mediano, Monstro, filme de Anthony Mandler, vem com exatamente esse propósito.


O drama, que estreou recentemente na plataforma, acompanha a história do jovem Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr), um menino negro talentoso que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando é acusado de participar de um roubo seguido de homicídio.


Baseado no livro homônimo de Walter Dean Myers, a trama do longa denuncia o sistema carcerário norte-americano e levanta questões importantes sobre o racismo e o preconceito em nossa sociedade. Entretanto, por trás de uma mensagem tão poderosa, o filme peca em alguns aspectos que acabam por diminuir a intensidade da obra.

Nem sempre se acerta todas, não é mesmo?

Um espetáculo para os olhos


Vamos começar com os refrescos. Para surpreender um total de zero pessoas, o diretor do filme é, na verdade, especializado em produções musicais. Tal fato facilmente se torna um diferencial na direção do longa, que segue um visual artístico e delicado, semelhante ao que vemos em videoclipes.


Os planos e a fotografia chamam a atenção do telespectador devido à sua sensibilidade e, mais importante, conversam muito bem com o protagonista do filme e sua vocação pelo cinema. Contudo, talvez justamente esse excesso de cenas abstratas tenha contribuído para a maior falha da produção: o roteiro raso. De nada vale criar enquadramentos deslumbrantes e se esquecer do principal – o enredo!


O equilíbrio é sempre bem-vindo


Narrada pelo próprio protagonista, a trama segue a vida dele antes e durante o seu período na cadeia, fazendo uso de saltos temporais. Esse vai e vem, entretanto, por mais que acrescente no aprofundamento de Steve aos olhos do público, acaba por dificultar o desenvolvimento de outros personagens da história.


Primeiramente, temos a família de Steve, que serve somente como apoio para a construção do protagonista. Não vemos cenas de seu irmãozinho (Nyleek Moore) após a acusação de Harmon e sua mãe, interpretada pela talentosa Jennifer Hudson, em nenhum momento tem a sua chance de brilhar. O único que consegue extrair faíscas do roteiro é o personagem de Jeffrey Wright, pai de Steve. Em suas cenas com o filho, Wright faz o telespectador sentir toda a dor que ele está sentindo.


Potencial perdido!


Contudo, o que de fato prejudica o filme é a sua própria confusão sobre qual história pretende contar. O enredo se prende em momentos fracos e de pouca importância, como o excesso de cenas sobre o filme de Steve e dele com a sua crush (que não tem absolutamente nenhum aprofundamento durante a trama) e, ao fazer isso, se esquece de dois personagens importantíssimos para a narrativa: King (ASAP Rocky) e “Bobo” (John David Washington).


Os dois companheiros são os responsáveis pelo crime do qual Steve é acusado de participar, entretanto, a dupla não é explorada além disso. Por um grande período de tempo, o público fica perdido sobre quem é esse tal de “Bobo”, especialmente porque seu personagem demora uma eternidade para ser introduzido.


O mesmo se aplica a King que, por mais que tenha mais tempo de tela e desenvolve um certo relacionamento com o protagonista, tem as suas motivações e desejos completamente esquecidos. No fim, dois personagens que tinham tudo para contribuir para a temática, acabam por ser nada mais do que superficiais e estereotipados.

Não foi dessa vez, King!

Altos e baixos


De modo geral, Monstro vem com boas intenções e discute sobre questões extremamente pertinentes para os dias de hoje, porém, se perde em sua própria história e personagens. Mas, apesar de todas as suas falhas, o público continua imerso nesse drama de tribunal, torcendo pela inocência de Steve, muito por conta do carisma e do show de atuação que Kelvin Harrison Jr nos proporciona. Oscar, presta atenção!


Obra prima ou não, Monstro vai te fazer pensar sobre o que de fato é a “verdade”, sobre as consequências de nossas ações e, acima de tudo, sobre o que realmente nos torna humanos.


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