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  • Giulia K. Rossi

Análise | The Chair - Comédia surpreende com maturidade e temas relevantes

Já estamos acostumados com a Netflix investindo em títulos genéricos que fazem um instantâneo sucesso (independente da qualidade), mas a série estrelada pela talentosíssima Sandra Oh, The Chair, mostra que a patroa dos streamings não tem medo de também sair da caixinha e investir em produções que ousam misturar um humor ácido com questões essenciais nos dias de hoje. Mas e aí, será que a intenção foi tão boa quanto a execução?


A comédia escrita pela atriz Amanda Peet segue a Dra. Ji-Yoon Kim, que acaba de se tornar a chefe do Departamento de Inglês de uma renomada universidade. Contudo, ser a primeira mulher e pessoa não branca no comando, não será nada fácil. Ainda mais quando o seu velho amigo, o professor Bill Dobson (Jay Duplass) não facilita as coisas para ela.


Quem manda nessa m*rda toda!


Em seu primeiro projeto como roteirista, Peet mostra que também tem talento no papel, e não somente nas telonas. A atriz faz um bom trabalho em The Chair, misturando comédia e drama sem que um gênero se perca no outro. Apesar de alguns deslizes (que, preparem-se, serão mencionados), a série segue uma premissa extremamente relevante e sustenta uma série de debates importantes na atualidade.


Entre alguns tópicos, vale destacar a discussão sobre a falta de diversidade de gêneros/raças/etnias em importantes cargos e a evidente cultura de cancelamento que presenciamos hoje, por conta da ascensão das mídias sociais. Sem tirar o foco da leveza da narrativa, o seriado mostra a dominância de homens brancos no departamento, assim como a dificuldade de Ji-Yoon Kim de ultrapassar o conservadorismo presente nas organizações de poder. De fato, é uma protagonista que conversa diretamente com as gerações atuais, e somado com o carisma de Sandra Oh, é impossível não torcer por ela e ver no que vai dar.

São elas que mandam, sim!

E o prêmio vai para...


Mas não é apenas Oh que brilha em seu papel, pois a veterana Holland Taylor é quem verdadeiramente rouba a cena como Joan, uma professora que está no departamento há 32 anos e teme a sua inevitável substituição. Sem medo de ousar no sarcasmo, a atriz entrega várias das cenas mais divertidas da série, mesmo sem perder a profundidade de sua trama. Aquela típica professora que tememos e admiramos!


Entre as atuações mais marcantes da série, também vale mencionar a pequena Everly Carganilla no papel de Ju-Hee, a filha da protagonista. A sua excêntrica personalidade tira facilmente alguns sorrisos do espectador, além de surpreender com uma interessante história sobre identidade e adoção.


Não só isso, como outro aspecto positivo da série é o seu importante protagonismo asiático. Ainda que não seja o foco principal da trama, o enredo celebra a cultura coreana, que é tão pouco explorada em produções norte-americanas.

Impossível não amar tanta fofura!

Quem mira longe nem sempre acerta (aviso de spoilers)


A produção conta somente com curtos seis episódios, o que dificulta o aprofundamento de todas as narrativas criadas. Além de Ji-Yoon Kim e Joan, a série teria se beneficiado com o foco também na Dra. Yaz McKay (Nana Mensah), a única professora negra do departamento. Apesar de dividir alguns bons momentos com a personagem de Sandra Oh, ela é jogada para escanteio em um seriado onde a sua importância é tão grande quanto a da própria protagonista.


A pequena primeira temporada deixa aquele gostinho de "quero mais", porém, também termina com aquela sensação de que poderia ter sido melhor explorada, bastava eliminar o desnecessário romance entre Bill e Ji-Yoon Kim, mesmo que o personagem de Jay Duplass seja carismático e apresente uma trama comovente, especialmente quando cria uma inesperada amizade com a filha da protagonista.


O estado "sem rumo" de Bill provoca uma série de problemas que Ji-Yoon tem que fazer o impossível para resolver, o que não somente fere o seu protagonismo, como prejudica o seu cargo como a líder do departamento, uma das partes mais importantes da história (ela tinha mais potencial do que isso!). A gente adora um bom amorzinho, mas, infelizmente, inseri-lo tão rapidamente trouxe mais prejuízo do que borboletas no estômago...

Melhor deixar pra próxima...

Um pequeno achado!


Em nenhum momento a série tem a intenção de tirar o fôlego do público, pouco apostando em cenas absurdas e exageradas que tanto estamos acostumados em comédias hollywoodianas; ao mesmo tempo que comove os espectadores de maneira sutil, sem focar em intensas situações dramáticas. Contudo, de maneira alguma, isso é algo negativo.


The Chair, no fim das contas, surpreende com uma madura e leve narrativa, que entretém a audiência com sua sensibilidade e abordagem de vários temas importantes. Mesmo com a sua pequena duração, o seriado consegue entregar um começo, meio e fim satisfatórios, da mesma forma que ainda deixa um imenso espaço para ser explorado em uma próxima temporada (que vou torcer para que tenha!).


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