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CCXP | Confira o que rolou no Artist's Valley no domingo

Foram três dias com mais de 30 horas de conteúdo sobre o universo dos quadrinhos e três masterclasses, além de mais de 500 mesas nas quais o público teve a oportunidade de interagir com artistas e comprar artes originais. O grande destaque deste domingo foi a participação de Art Spiegelman. Vencedor de um Pulitzer, ferrenho crítico de Donald Trump, o autor de Maus - que está entre os quadrinhos mais importantes da cultura pop - Art Spiegelman falou no painel do Artists’ Valley e lembrou a polêmica de 2019 quando a Marvel pediu para que ele retirasse o termo ‘Caveira Laranja’ de uma publicação - na ocasião, ele havia feito uma referência ao bronzeado do então presidente norte-americano com o vilão do Capitão América, Caveira Vermelha. Dono de um trabalho de crítica a sistemas autoritários, Spiegelman contou por que não desenha Trump: "Não importa se você está dando a atenção positiva ou negativa, ele é um vampiro que se alimenta de qualquer tipo".

Ao ser questionado sobre a importância da leitura de Maus na atual sociedade, Spiegelman foi direto e disse que nos Estados Unidos, as pessoas não leem e estão cada vez mais mal informadas: "Hoje em dia se lê apenas de pouquinho em pouquinho". Para o artista, o extremismo do conservadorismo no Brasil e Estados Unidos fizeram a venda de Maus subir igualando números de quando foi lançado nos anos 80. Ele disse acreditar que sua obra se mantém atual e que ela alerta para os perigos de seguir líderes com discursos extremistas. "Graças a estas figuras, existe uma geração que se pergunta ‘o que diabos é um campo de concentração?’".

Neste domingo, o coração da CCXP também contou com Fabien Toulmé, que revisitou seu contato com um refugiado e sua família na obra ‘A Odisseia de Hakim’ e lembrou sobre o trabalho ‘Não era você que eu esperava’, em que retrata o nascimento de sua segunda filha com Síndrome de Down. O artista, que transita entre o jornalismo e a biografia em suas HQs, prometeu que o próximo título será uma ficção e irá tratar as mudanças ao longo do tempo do relacionamento entre casais.


Já a famosa roteirista norte-americana Gail Simone, conhecida por ‘Batgirl’, ‘Red Sonya’ e ‘Aves de Rapina’, relembrou sua longa história na indústria de quadrinhos e comentou sobre o aumento de mulheres na indústria nos últimos anos. "No passado não havia a participação de mulheres efetivamente em histórias. Elas não faziam parte. Elas não eram aventureiras e sim, vítimas de violência sexual, cortadas ou assaltadas. Sempre secundarias. Até que comecei a perguntar para os executivos: ‘Por que vocês descartam 50% de faturamento ao decidir não investir em histórias diversas e voltadas ao público feminino?’". A criadora do blog feminista ‘Woman in Refrigerators’ disse que as páginas dos quadrinhos são ilimitadas, que mentes podem ser mudadas e ainda frisou: "Representation matters", em português, "representatividade importa".

Durante a tarde, um bate-papo bem humorado com o escritor americano Gerry Conway foi um dos mais comentados no chat do painel. Com apenas 17 anos, trabalhou com lendas como Stan Lee e Jack Kirby. Ele revelou que passou 20 anos sem frequentar convenções de quadrinhos após a publicação de ‘A Noite em que Gwen Stacy Morreu’, em 1973. A poderosa história do Homem-Aranha traz a morte a amada de Peter Parker, revelando a falha do herói e mexendo com os fãs. O artista, que em determinado momento deixou de ler as cartas recebidas na época, se defendeu: "E a ideia nem foi minha".



Na sequência, Conway falou sobre sua manifestação contrária ao uso do símbolo do personagem Justiceiro em uniformes de policiais durante a repressão de protestos do ‘Black Lives Matter’. "O símbolo do Justiceiro representa uma falha no sistema, algo falido e nunca foi criado para significar opressão. Acredito que o Justiceiro estaria do lado da população, contra os policiais e não a favor". Quando perguntado sobre como foi escrever um cross-over entre Marvel e DC, Conway disse que o difícil foi igualar o número de falas, quadrinhos e páginas para os dois heróis (Homem-Aranha e Superman). "Foi algo matemático", explicou ao lembrar que as editoras tinham visões diferentes sobre o projeto, porém, ele confessa que foi um projeto dos sonhos.

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